Do título

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"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Crepúsculo

E a chuva continua. O Guri de Uruguaiana informa no twitter que o Noé foi visto na Tumelero da Assis Brasil comprando madeira. E que o desfile de 20 de setembro será com cavalos marinhos e o acampamento passará a se chamar Alagamento Farroupilha. Enquanto isso,  na sala da justiça  já que não dá pra fazer nada, resolvi organizar o computador e encontrei este texto, que escrevi em 2008, perdido numa pasta (este e vários outros, portanto esperem muitas velharias).


Crepúsculo

Porto Alegre, 17hs, Usina do Gasômetro.

Aqui do alto da usina, eu posso vê-lo chegar, majestoso, imponente...
Vai, aos poucos, revelando suas cores, como em um desfile. Tons de laranja, amarelo, azul. Eles se movem, misturam-se, impõem-se uns aos outros, revelam-se, entregam-se. Eu quase posso tocá-las, aqui de cima.
O cenário muda a cada instante, fugaz, como tudo que é sublime, que é intenso. Parecem dançar para mim, uma dança sem pudor. Então, neste ballet nada sincronizado, descem lentamente, como que em despedida e vão, serenamente, repousar nele, no velho Guaíba.
Aqui de cima, em meio aos casais que buscam o espetáculo como pano de fundo para suas paixões, posso ver o movimento das pessoas, dos carros, da vida que não para, que segue sem ver, vistas cansadas.
Posso ver os barcos, as ilhas, o cais do porto, a orla, o anfiteatro, o horizonte, enquanto fico vendo a noite tomar o seu lugar, pensando no dia que passou, na vida que passa, na noite que chega e em mais este pôr-do-sol, o qual jamais virá da mesma forma, jamais se repetirá, em mais este pôr-do-sol que eu não pude dividir, em mais este que passou sem ti.