Do título

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"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A confissão de Silvana*

A pantalona marrom, cujas barras tremulavam frenéticas, formava desenhos estranhos no corredor da nave central. Quem, de dentro da igreja de Santo Onofre, olhasse para trás, diria ter visto uma aparição curiosa, inflando e desinflando pernas desproporcionais.

De fato, se os poucos fiéis, que rezavam baixinho nos ban­cos largos de madeira, tivessem se voltado para a porta no mo­mento em que Silvana parara ali, indecisa, teriam decifrado a verdade em seu coração: imperfeita, imponderada, impruden­te, inamável, inaplicada, incompetente, impura, insaciável.

Silvana abaixou a cabeça, dobrou os joelhos no limite de suas possibilidades — que não eram muitas — e cortejou o corpo de Cristo com o sinal-da-cruz; o Messias ali sofrendo por nós, suportando, inclusive, o peso das maiores tentações em nome da humanidade e ela, ela... precisava se confessar.

Silvana não era católica apostólica romana realmente praticante, mas necessitava, com uma ardência de queimadura fresca, buscar consolo para sua consciência. Sim, agora era tarde, e o mal já estava feito, mas quem sabe o arrependimento e a bênção de um padre aliviariam sua alma desgraçadamente pecadora?

Fosse qual fosse a penitência — e decerto ela seria gran­de — , estava disposta a pagar: ajoelhar sobre grãos de milho uma centena de noites rezando o terço, açoitar as próprias costas por nove anos com chicote de metal, cantar em louvor a Deus até desfalecer exangue, arrastar-se de joelhos pela maior escadaria de pedra do mundo, pelo resto da vida, nos aniversários do seu delito...

As solas dos sapatos de um homem estavam à mostra no confessionário. Silvana esperou.

Um murmúrio desviou seu olhar para o vitral em que a imagem de Nossa Senhora subia aos céus. Uma réstia de sol, através de uma parte vermelha do vitral, repousou em suas mãos. A luz lhe fez voltar à mente o horror da noite passada: o líquido rubro escorrendo pelos dedos, impregnando as unhas, deixando rastros indeléveis nas cutículas.

Baixou a cabeça, fechou os olhos e tentou rezar, todavia não se sentia capaz, não sem antes pedir perdão. Ao tentar levantar a cabeça, trombava com a mesma luz vermelha que se liquefazia diante de seus olhos e migrava tonta em direção aos pés, exatamente ali, onde uma gota mais espessa pingara no tapete creme.

O dono dos sapatos se levantou: o confessionário estava livre. Silvana, zonza, ajoelhou-se de sopetão.

— Padre, perdoa-me, porque pequei. Perdoa-me, padre, por favor!

A voz entrecortada por lágrimas abundantes não deixava dúvidas ao padre Eusébio: ali se encontrava uma alma em sofrimento pungente.

— Minha filha, estou aqui por ti, alivia a alma e conta: em que pecaste?

Silvana chorou por alguns minutos, pacientemente escol­tada pela bondade do sacerdote, até que, inspirando um lufada de ar, decidida, iniciou sua confissão.

— Padre, cometi o maior dos delitos para com a minha própria consciência. Mal consigo me olhar no espelho! Meu sofrimento moral é enorme, assim como meu arrependimen­to. Padre, padre... isso é muito delicado, mas eu confio no Senhor, confio no santo ministério da confissão e que isto ficará apenas entre nós e Deus.

Padre Eusébio empalideceu. Aquela não era, sem dúvida, uma confissão convencional. A ovelha desgarrada estreme­cia, em pranto ininterrupto. A coisa parecia séria e, por isso mesmo, sua curiosidade e seu medo em muito se aguçaram.

— Calma, filha. O que quer que me confesses, por certo ficará entre nós e Deus: mais ninguém. Abre teu coração.

— Graças a Deus, estou segura agora, não estou?

— Plenamente, filha.

— Padre, é triste. Minhas mãos manchadas, o tapete, meu corpo infectado, não consegui nem tomar banho, é humilhan­te! Padre, por favor, me dê o perdão de Deus e dos homens, por favor, eu lhe imploro!

O sacerdote, além de pálido, curioso e amedrontado, foi ficando aterrorizado. A moça parecia querer confessar um crime! Será? Ele recuou um pouco no confessionário, buscan­do distância segura, e continuou.

— Filha, o perdão de Deus será dado a ti perante a penitência necessária, afinal, o primeiro passo tu já deste: estás aqui. Arrependida, suplicando sossego à tua dor. Mas o perdão dos homens... por esse não posso me responsabilizar. Abre teu coração, filha, não temas, o que fizeste para se apresentar nesse estado de nervos?

Tendo a resposta se sufocado pelo choro convulsivo de Silvana, padre Eusébio fez cinco vezes o sinal-da-cruz en­quanto rezava fervorosa Ave-Maria, buscando inspiração para acalmar a pobrezinha.

— Filha, lembra-te dos ensinamentos de Jesus. A ovelha mais preciosa ao Reino dos Céus é justamente a que se perdeu: és tu, filha, tu! Para tanto, basta que me contes tudo e te prepares para a penitência com resignação.

Após assoar o nariz várias vezes ruidosamente, Silvana confessou.

— Padre, eu, eu comi três pedaços de pizza ontem, cheios de molho e muzzarela. Meu regime, padre, meu regime! Depois de meses em abstinência, tudo por água abaixo por causa de uma tentação dos infernos como é a pizza! Comi tão desesperadamente, tão cheia de desejos insalubres, que até me lambuzei de molho de tomate; o tapete, então, está cheio de manchas. Comi as bordas também: as bordas massudas! Tenho certeza de que engordei, no mínimo, uns dois quilos. Não consigo nem me olhar no espelho, padre, não posso mais, minha consciência está me matando! Me ajude!

Padre Eusébio enxugou na batina a fronte banhada em suor gelado, retirou um dos cartõezinhos que mantinha no bolso para casos como aquele e o passou, enroladinho, à pseudopecadora, pela fresta de madeira do confessionário.

— O que é isto, padre? — replicou Silvana.

— É o cartão da minha irmã, filha, ela é psicanalista. Vá com Freud e que Deus te acompanhe. Amém.


*Crônica extraída do livro Hoje Acordei Gorda (Mario Prata)