Do título

Do título

"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

domingo, 15 de agosto de 2010

Assino embaixo

Atualizando a leitura de ZH, me deparo com uma coluna da Martha Medeiros (não, não sou fã, mas aqui abro uma exceção) com a qual concordo plenamente.

A elegância do conteúdo

"De ferramentas tecnológicas, qualquer um pode dispor, mas a cereja do bolo chama-se conteúdo. É o que todos buscam freneticamente: vossa majestade, o conteúdo.

Mas onde ele se esconde?

Dentro das pessoas. De algumas delas.

Fico me perguntando como é que vai ser daqui a um tempo, caso não se mantenha o já parco vínculo familiar com a literatura, caso não se dê mais valor a uma educação cultural, caso todos sigam se comunicando com abreviaturas e sem conseguir concluir um raciocínio. De geração para geração, diminui-se o acesso ao conhecimento histórico, artístico e filosófico. A overdose de informação faz parecer que sabemos tudo, o que é uma ilusão, sabemos muito pouco, e nossos filhos saberão menos ainda. Quem irá optar por ser professor não tendo local decente para trabalhar, nem salário condizente com o ofício, nem respeito suficiente por parte dos alunos? Os minimamente qualificados irão ganhar a vida de outra forma que não numa sala de aula. E sem uma orientação pedagógica de nível e sem informação de categoria, que realmente embase a formação de um ser humano, só o que restará é a vulgaridade e a superficialidade, que já reinam, aliás.

Sei que é uma visão catastrofista e que sempre haverá uma elite intelectual, mas o que deveríamos buscar é justamente a ampliação dessa elite para uma maioria intelectual. A palavra assusta, mas entenda-se como intelectual a atividade pensante, apenas isso, sem rebuscamento.

O fato é que nos tornamos uma sociedade muito irresponsável, que está falhando na transmissão de elegância. Pensar é elegante, ter conhecimento é elegante, ler é elegante, e essa elegância deveria estar ao alcance de qualquer pessoa. Outro dia conversava com um taxista que tinha uma ideia muito clara dos problemas do país, e que falava sobre isso num português correto e sem se valer de palavrões ou comentários grosseiros, e sim com argumentos e com tranquilidade, sem querer convencer a mim nem a ninguém sobre o que pensava, apenas estava dando sua opinião de forma cordial. Um sujeito educado, que dirigia de forma igualmente educada. Morri e reencarnei na Suíça, pensei.

Isso me fez lembrar de um livro excelente chamado A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, que conta a história de uma zeladora de um prédio sofisticado de Paris. Ela, com sua aparência tosca e exercendo um trabalho depreciado, era mais inteligente e culta do que a maioria esnobe que morava no edifício a que servia. Mas, como temia perder o emprego caso demonstrasse sua erudição, oferecia aos patrões a ignorância que esperavam dela, inclusive falando errado de propósito, para que todos os inquilinos ficassem tranquilos - cada um no seu papel.

A personagem não só tinha uma mente elegante, como possuía também a elegância de não humilhar seus "superiores", que nada mais eram do que medíocres com dinheiro.

A economia do Brasil vai bem, dizem. Mas pouco valerá se formos uma nação de medíocres com dinheiro."

Martha Medeiros, em ZH

sábado, 14 de agosto de 2010

Redação

A gentalha

A gentalha pega ônibus com mochilas que, pelo tamanho, trazem no seu interior todo o patrimônio da gentalha e ficam no corredor do ônibus obstruindo a passagem até de um fio de cabelo. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que passar num corredor onde tenha um representante da gentalha com sua mochila.

A gentalha usa casacos que fariam um esquimó no Polo Norte se abanar de tanto calor e com capuzes do tamanho da África Meridional, sendo que a temperatura é de 18 graus, ou seja, verão. Os casacos da gentalha são tão grandes que fazem com que a gentalha ocupe mais espaço ainda.

A gentalha, embora esteja num ônibus onde não há oxigênio suficiente nem para a metade das pessoas contidas ali, quente e abafado no último grau, quase se mata para conseguir fechar TO-DA e qualquer janela ou passagem de ar possível, tornando respirar uma utopia.

A gentalha usa casacos sujos e com um suave aroma que é um mix de cheiro de guardado, suor e sujeira, que fica ainda mais evidente, visto que fecharam TO-DAS as janelas.

Quando se pega um ônibus com a gentalha, Murphy, aquele fanfarrão, sempre vigilante, faz a bateria do seu mp3 acabar logo que você adentra o recinto, fazendo que, horror dos horrores, você também tenha que ouvir a conversa da gentalha.

A gentalha se dá conta que tem descer dois segundos antes do ônibus parar e ainda está lááááá na frente, o que significa que vão passar correndo como um furacão, com suas mochilas e casacos, levando o resto de dignidade que ainda resta a você.

Portanto, mesmo que esteja chovendo canivetes abertos, que você não tenha guarda-chuva, esteja usando salto 15 e não saiba nadar, enfrente a chuva, pois, embora você não deva fazer isto em lugar algum do planeta, um ônibus é, definitivamente, o pior lugar do mundo para se misturar com a gentalha.