Do título

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"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Eu gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem....

Lembrei do poema do Pessoa hoje. Porque não tenho mais paciência pra essa gente que tem solução pra tudo, que diz tudo que eu tenho que fazer, como tenho que fazer e o porquê. Gente que não admite nem para si mesma suas fraquezas, sua impotência. Gente que lê aquele livro, ou aqueles, e acha que vai mudar as coisas. Gente que indica o livro junto com o discurso de que se você não acreditar não adianta. Gente que julga as atitudes alheias. Que diz como eu devo pensar. Que diz que fala isso para o seu bem e porque é seu amigo. Gente pró-ativa, que dá feedback, que é multi-tarefa, que não perde tempo, que se relaciona pra cuidar do seu network e fazer marketing pessoal. Gente que não chora, ou chora escondido, porque não pode demonstrar tristeza, o mundo não gosta de pessoas tristes. Gente que tem uma dúzia de clichês e frases feitas na ponta da língua. Que nunca se humilhou. Que nunca sofreu. Gente que não sente raiva, que nunca sentiu uma ponta de inveja, que nunca sentiu dor. Que só gosta de quem gosta delas. Que tem auto-estima. Que nunca sente pena de si mesma. Que nunca se sentiu ridícula por ter escrito ou ligado. Que nunca sentiu vergonha e nem remorso. Que não guardam rancor e só tem sentimentos bons. Que ama a razão e não o alguém. Que nunca se arrependeu. Que só se arrepende do que não fez. Gente que diz: "se eu fosse você....", que não fala alto, que nunca perde o controle. Que só pensa positivo. Que manda você só pensar positivo.Gente bonita. Que está na moda, que é in. Gente como a bailarina da música do Chico Buarque.
Mas Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos é que o disse tão bem:

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos...

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos