Do título

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"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca."
( Dom Casmurro, Machado de Assis, cap. 32 )

sábado, 3 de novembro de 2007

Era uma vez...

Era uma vez um homenzinho estranho, que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida:
1- Ele repartiria o cabelo do lado contrário ao de todas as outras pessoas.
2- Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.
3- Um dia, ele dominaria o mundo.

O homenzinho perambulou por muito tempo pensando, fazendo planos e procurando descobrir exatamente como tornaria seu o mundo. E então, um dia, saído do nada, ocorreu-lhe o plano perfeito. Ele viu uma mãe passeando com o filho. A horas tantas, ela repreendeu o garotinho, até que ele acabou começando a chorar. Em poucos minutos, ela lhe falou muito baixinho, e depois disso ele se acalmou e até sorriu.
O homenzinho correu até a mulher e a abraçou. “Palavras!” e sorriu. “O quê?”. Mas não houve resposta. Ele já se fora.

Sim, o Führer decidiu que dominaria o mundo com palavras. “ Jamais dispararei uma arma”, concebeu. “Não precisarei fazê-lo.” Mesmo assim não se precipitou. Reconheçamos nele ao menos isso. Ele não tinha nada de burro. Seu primeiro plano de ataque foi plantar as palavras em tantas áreas de sua terra natal quantas fosse possível.
Plantou-as dia e noite, e as cultivou.
Observou-as crescer, até que grandes florestas de palavras acabaram crescendo por toda a Alemanha...Era uma nação de pensamentos cultivados.

Enquanto as palavras cresciam, nosso jovem Führer plantou ainda sementes para criar símbolos, e também estas se achavam bem perto do pleno desabrochar. Era chegada a hora. O Führer estava pronto.
Convidou seu povo a se aproximar de seu glorioso coração, acenando-lhes com suas palavras melhores e mais feias, colhidas a mão em suas florestas. E as pessoas vieram.
Todas foram colocadas numa esteira rolante e conduzidas por uma máquina-baluarte, que lhes dava uma vida inteira em dez minutos. Elas eram alimentadas com palavras. O tempo desapareceu e elas passaram à saber tudo que precisavam saber. Ficaram hipnotizadas.
Em seguida, foram equipadas com seus símbolos, e todas ficaram felizes.


( Trecho do livro “ A Menina que Roubava Livros “ de Markus Zusak )